Adriana Calcanhotto revive a infância e celebra duas décadas de Partimpim

Shows e espetáculos teatrais apresentam música popular brasileira para crianças

Por Lucas Vieira 10 out 2025, 06h08
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Vinte anos de Partimpim: Adriana Calcanhotto vê, na plateia, fãs mirins que cresceram e agora apresentam suas músicas aos filhos (Leo Aversa/Divulgação)
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O Dia das Crianças nunca foi uma data marcante para Adriana Calcanhotto. Quando era pequena, a menina tímida achava o universo dos adultos muito mais interessante — e virar noites em claro parecia uma das melhores diversões do planeta.

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Filha de educadores, ela cresceu ouvindo o famoso “isso não é pra criança”, frase que só fazia aumentar sua vontade de logo ficar grande.

Só aos 39 anos, ao criar a persona Partimpim, a cantora e compositora descobriu o quanto a infância pode ser uma fase de pura brincadeira e arte.

O projeto voltado ao público infantil, que completa duas décadas, soma quatro álbuns recheados de experimentações lúdicas e releituras inspiradas de canções como Fico Assim Sem Você (Claudinho & Buchecha), Gatinha Manhosa (Roberto e Erasmo Carlos) e Ciranda da Bailarina (Chico Buarque e Edu Lobo).

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“Vejo na plateia espectadores mirins que cresceram, alguns já têm até filhos. Os ‘partimpiners’ fazem parte de uma geração que amadureceu debatendo temas antes postos debaixo do tapete”, lembra a artista. “Tenho orgulho disso”, diz ela, que volta a se apresentar para o público infantil após quinze anos.

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A turnê O Quarto no Palco, que estreia neste sábado (11) em Maceió, rodará mais dez cidades e vai misturar canções dos quatro discos com projeções de esculturas multicoloridas em LED do alagoano Mestre Jasson.

Aos sucessos atemporais se somam as recentes Malala (O Teu Nome É Música) e Atlântida, do álbum de 2024.

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“As trilhas dos desenhos das décadas de 1950 a 1970, principalmente as da produtora Hanna-Barbera, que criou Tom e Jerry, Os Flintstones, Os Jetsons e Scooby-Doo, inspiraram os arranjos”, explica Marlon Sette, trombonista e diretor musical da turnê.

Um aperitivo do show foi exibido no festival Doce Maravilha, no fim de setembro, quando Adriana entrou no palco de capacete de astronauta e figurino que lembrava um edredom.

Entre trocas de adereços e brincadeiras com os músicos, seus parceiros de “algazarra”, à vontade, perguntou: “Tem criança na plateia?” e ouviu um “sim” entusiasmado de pais, filhos e avós que cantavam juntos os hits dos vinte anos de Partimpim.

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“A ideia do repertório é dialogar com crianças de todas as idades e incluir assuntos que aprendem na escola, como a história de Malala Yousafzai. É preciso tratá- las com inteligência. Fico feliz de ser uma ponte que leva essas pautas à garotada”, fala a cantora.

Adriana da Cunha Calcanhotto nasceu em Porto Alegre, em 3 de outubro de 1965. Embora não lembre, o pai costumava contar que, por volta dos 3 anos, ela respondia “Adriana Partimpim” quando queriam saber seu nome.

A infância foi embalada por Braguinha e Chico Buarque e pelos livros infantis de Cecília Meireles e Manuel Bandeira.

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Depois de dar os primeiros passos da carreira no Sul e em São Paulo, mudou-se para o Rio em 1989, onde assinou o primeiro contrato com uma gravadora.

Passados cinco anos, lançou o hino Cariocas, em que decreta — aliás com toda a razão — que quem nasce nestas praias não gosta de dias nublados.

Dona de uma discografia poética, de interpretações marcadas por assinatura e de um repertório que perpassa ritmos diversos, realizou em 2004 o desejo antigo de cantar para a meninada.

“Fui gravar com Hermeto Pascoal e ele levou uns bichinhos de plástico que emitiam som e bacias cheias d’água. Ali percebi que era possível mostrar, através do som e da estética, as tais músicas de adulto para as crianças”, relembra a gaúcha, que, desde Tlês (2012), o terceiro disco do projeto, vinha se dedicando a shows, discos com seu próprio nome e às aulas de composição e escrita na Universidade de Coimbra, em Portugal.

Desde Vinicius de Moraes e Toquinho até Pato Fu, a MPB nunca deixou de estabelecer um forte elo com a plateia infantil. Projetos que aproximam a música popular brasileira do universo das crianças estão no DNA da arte nacional.

Em 1972, a peça O Jardim das Borboletas, de André José Adler, teve trilha de Zé Rodrix e Taiguara — o vinil do espetáculo é hoje uma raridade disputada por colecionadores.

Na mesma década, vieram álbuns marcantes como Vila Sésamo (1974) e Os Saltimbancos (1977), com letras e melodias de Marcos Valle e Chico Buarque.

A Arca de Noé (1980), idealizada por Vinicius, e Aquarela, de Toquinho, foram trilha sonora da infância na década de 1980 — era impossível não tentar cantar junto enquanto se desenhavam arco-íris imaginários ou se encenavam aventuras com animais de papel pelo quarto. Em 2010, o Pato Fu reinventou o formato com Música de Brinquedo.

Essa tradição ajuda pais a apresentar o cancioneiro brasileiro aos filhos. O casal Thania Carvalho, 41 anos, e Itamar Cardin, 40, viajou de São Paulo ao Rio com a filha, Helena, de 7, apenas para assistir à pré-estreia de O Quarto no Palco, no Doce Maravilha. “É uma prática fundamental para aproximar os gostos dos pais aos das crianças”, avalia Itamar.

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Em família: Itamar, Thania e Helena viajaram de São Paulo para o Rio de Janeiro para assistir a Partimpim (./Arquivo pessoal)

Um fator essencial para encantar ouvidos em etapa ainda inicial da vida tem a ver com a educação sonora e sua comprovada capacidade transformadora, que se estende além de palcos e discos, despertando a curiosidade e abrindo horizontes para todas as idades.

Segundo mapeamento da instituição Brasil de Tuhu, em parceria com a JLeiva, o Rio é o vice-campeão no país de projetos voltados para treinar ouvidos e cultivar o gosto pela música, atrás apenas de São Paulo.

Fora das escolas regulares, foram rastreadas 41 iniciativas — 17% do total no Brasil.

Aos 28 anos, Bruna Batista, professora de música desde os 16, leciona atualmente na unidade de Realengo do Colégio Pedro II e percebe um sintoma bem contemporâneo nas crianças — os efeitos do excesso de telas, algo que a música contribui para neutralizar.

“Trabalho com alunos de 6 a 11 anos, uma faixa etária curiosa, em que o conhecimento se constrói pela brincadeira. Noto neste grupo uma dificuldade de concentração, sono e socialização, o que prejudica o aprendizado”, observa. “Ir a peças e shows ajuda a afastar a criançada do celular e dar asas à criatividade”, enfatiza.

No teatro, essa conexão entre arte e aprendizado floresce de forma natural e prazerosa. Cientes do poder do palco, o diretor artístico Diego Morais e o dramaturgo Pedro Henrique Lopes criaram, em 2013, o projeto Grandes Músicos para Pequenos, que ganhou projeção ao homenagear ícones da MPB — Milton Nascimento, Elza Soares, Luiz Gonzaga e Elis Regina, entre outros.

Ao longo de doze anos, já foram apresentados oito musicais para cerca de 400 000 espectadores numa jornada que rendeu até agora quinze troféus e sessenta indicações a prêmios.

“A potência e a diversidade da nossa música encantam, mas o desafio é prender a atenção das crianças com arranjos, figurinos e cenários pensados para os olhos delas. Se não mergulham com a gente, em três segundos perdemos sua atenção”, constata Lopes, referindo-se à onipresença das telas.

O novo espetáculo da série, Ritinha Rock’n’Roll, estreia na EcoVilla Ri Happy, no dia 18, celebrando Rita Lee. “É importante assistir a espetáculos que vão além do entretenimento. O público infantil é sensível e inteligente, não pode ser subestimado. Além disso, quem é incentivado a consumir arte na infância tende a frequentar o teatro na adolescência e na vida adulta”, ressalta Aniela Jordan, gestora do espaço no Jardim Botânico.

Com base nos estudos do pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott (1896-1971), as pesquisadoras da Universidade Franciscana (RS) definem o ato de brincar como o “caminho de relação entre a pessoa e o mundo, carregado de criatividade e espontaneidade, constituindo um aspecto natural do ser humano”, no artigo acadêmico “O brincar na fase adulta: um olhar winnicottiano”.

O excesso de trabalho, adicionado às costumeiras preocupações cotidianas, leva os adultos, em alguma medida, a buscar maneiras de seguir brincando, o que pode ter desdobramentos positivos e para lá de sérios.

Pular carnaval fantasiado, jogar videogame, colorir livros ou até colecionar bonecos (olha os Bobbie Goods e os Labubus aí) podem ser, por que não?, uma trilha para amenizar a tensão e cuidar da saúde mental.

Em conversa com VEJA RIO, Adriana esclareceu que Calcanhotto e Partimpim responderiam juntas às perguntas da entrevista. “Eu brinco. De fazer música”, diz ela, que volta a se apresentar no Rio com a turnê em 15 de novembro, no Brava Arena Jockey.

Se depender de Partimpim e da MPB, a magia do 12 de Outubro seguirá bem viva para a criançada.

Discoteca básica – Clássicos da nossa música para apresentar para a garotada

O Jardim das Borboletas (1972). Com composições de Zé Rodrix (1947-2009), Taiguara (1945-1996) e Eduardo Souto Neto, o LP apresenta a trilha sonora da peça de mesmo nome, de André José Adler. As músicas narram acontecimentos do espetáculo e falam sobre personagens como o Grilo, o Girassol e a Borboleta.

Os Saltimbancos (1977). Inspirada no conto Os Músicos de Bremen, dos irmãos Grimm, a peça tem texto original do italiano Sérgio Bardotti (1939-2007) e música de Luis Enriquez Bacalov (1933-2017). No Brasil, a adaptação ficou a cargo de Chico Buarque. O LP inclui faixas que atravessam gerações, como Bicharia e História de uma Gata.

A Arca de Noé (1980). Com time diverso que incluiu Marina Lima, As Frenéticas e Fábio Jr., o disco tem capa assinada por Elifas Andreato (1946-2022) e composições de Vinicius de Moraes (1913-1980) e parceiros. O especial para TV baseado no disco foi a primeira obra televisiva brasileira a ganhar um prêmio Emmy.

Adriana Partimpim (2004, 2009, 2012, 2024). Em quatro volumes, a gaúcha apresenta a diversas gerações músicas de artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Marisa Monte e Arnaldo Antunes, além de canções próprias, criadas especialmente para os álbuns voltados para crianças de todas as idades.

Música de Brinquedo (2010). Lançando mão de instrumentos infantis, a banda mineira Pato Fu criou versões de clássicos de Roberto e Erasmo Carlos (1941-2022), Titãs e Tim Maia (1942-1998). Os shows contavam com personagens do grupo Giramundo de teatro de bonecos, também de Minas Gerais.

Sem contraindicação – Os benefícios da musicalização na educação infantil

  • Aumento da atenção e concentração
  • Desenvolvimento da coordenação motora
  • Aprimoramento das linguagens verbal e não verbal
  • Estímulo à criatividade e à imaginação
  • Fortalecimento da memória auditiva
  • Desenvolvimento da socialização
  • Aperfeiçoamento do senso rítmico
  • Contribuição para a autoestima
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