Relaxe e não perturbe a música

VEJA RIO visitou o [111], bar de audição de vinis cuja proposta é bebericar, degustar e paquerar entre sussurros

Por Pedro Landim 28 nov 2025, 10h39 | Atualizado em 29 nov 2025, 11h28
Vinil credito Jakob Rosen Unsplash.jpg - Copia
Vinil: mais de 1 000 discos à disposição e prensagens japonesas (Jakob Rosen Unsplash/Divulgação)
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No elevador que desemboca no salão, um cartaz com fotografia enigmática lembra um típico aviso do síndico aos condôminos: “Por favor, mantenha a voz baixa”. O pedido é assinado pelo senhor Wataru Fukuyama, que existe em carne e osso do outro lado do mundo, à frente do Martha, um “listening bar” em Tóquio onde recomenda-se a prática da mímica no salão, sob pena de expulsão.

O [111], comandado pelo rigoroso restaurateur Menandro Rodrigues um andar acima dos prestigiados Haru e Umai, se inspira no pioneiro japonês, mas pretende pegar leve com a clientela.

O investimento – coisa de 3,5 milhões de reais -, foi em torno de um objetivo: fazer da empreitada a mais completa tradução de um autêntico bar de audição japonês a duas quadras da barulhenta Praia de Copacabana. “Estou me sentindo fora do Rio, uma viagem legal na cidade que eu amo”, disse a curadora de arte Amanda Abi Khalil, 40 anos, libanesa radicada por aqui.

Ela foi uma das primeiras a chegar na casa, às 19h da primeira sexta-feira de funcionamento. “É uma proposta diferente para um público festeiro como o carioca. Estou curiosa”, comentou, enquanto lia um livro pelo celular e bebia saquê acomodada num elegante sofá de couro.

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[111]: há uma guitarra assinada pelo músico Andy Summers na área do DJ ()

Ao contrário de uma nova leva de bares com clima de boate, misturando sets de DJs, comida japonesa, drinques sofisticados e projeções, a exemplo do Rocco, em Ipanema, o Merci, na Barra, e o Triplex, em Botafogo ó, no [111] a regra é que os clientes permaneçam sentados. “Não sou da balada, não gosto de som ruim explodindo no alto-falante e gente bebendo por beber. Quando conheci esse tipo de bar no Japão, quis trazer algo inédito para o Rio”, aponta Rodrigues.

O espaço dispõe de um tratamento acústico que nada deve a um bom estúdio musical, e doze caixas de som estão escondidas no requintado ambiente, decorado com gravuras japonesas. Naquela sexta-feira, a frequência eclética lembrava um happy hour, misturando bermudas e mochilas a blazers e vestidos com jeito de caros.

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Às 20h30, ao som do trombonista japonês Hiroshi Suzuki, um casal se beijava sem pressa, próximo a um rapaz que praticava com afinco o air bass (a arte de fingir que toca o instrumento) e uma senhora lá pelos seus 70 anos percorria o salão sem pressa: “Estou conhecendo a casa, é muito bonita”, disse a um garçom. A cabine do DJ e curador musical Danny Dee guarda 1 000 vinis, entre pérolas de prensagem japonesa, como a trilha do filme Star Wars e o álbum de Stan Getz e João Gilberto, de 1964.

111 Bar_Drinque_Crédito Rodrigo Azevedo (11).jpg
Coquetel: uísque, jerez e milho japonês na receita ()

Atento a cada movimento, o chefe de bar e gerente Leonardo Santos, responsável pela coquetelaria de excelência, tem a delicada tarefa de explicar a proposta e pedir moderação no volume das conversas. Durante a visita de VEJA RIO ele passou por momentos de apreensão com a chegada de um casal com três crianças muito animadas, vindas da fila de espera do restaurante logo abaixo. Papel e lápis de cor brotaram rapidamente, aquietando a goela dos pequenos. O falatório aumenta com o passar do tempo – e dos copos – e parece difícil de ser evitado na cena tropical.

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Avisos não faltam: no cardápio, que tem até glossário, está escrito “esteja ciente que vozes altas podem atrapalhar” e, por baixo dos drinques, os porta-copos exibem a frase “não perturbe a música”. “Achei que você ia dar um bronca na gente porque estamos falando e rindo alto”, disse o designer de moda Dario Oliveira, 38 anos, assim que o repórter se aproximou do grupo de quatro amigos. “A proposta é um pouco pretensiosa, mas o som é muito bom e voltarei com certeza”, projetou.

“A ideia não é competir com as vozes, e até tocar mais baixo para que todos os volumes se reduzam ao mesmo tempo. Funciona na maioria dos casos”, garante Danny Dee. Agora é torcer para um ambiente de harmonia em que as bocas não atrapalhem os ouvidos.

Rigor: Menandro Rodrigues foi ao Japão visitar o bar do Sr. Fukuyama
Rigor: Menandro Rodrigues foi ao Japão visitar o bar do Sr. Fukuyama ()
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O requinte no [111] não está apenas nos primorosos coquetéis autorais e nos petiscos modernos do menu — tem barriga de porco com sorvete de milho (R$ 47,00); e cogumelos com bacon de pirarucu (R$ 69,00) —, mas na concepção do salão, dividido em quadrantes sonoros, com a cabine do DJ bem no meio.

Ali, esconde-se um imenso subwoofer com capacidade de 5 000 watts de grave. Cada espaço tem quatro pontos sonoros, somando doze caixas de alta fidelidade, ocultas atrás de fino gradil no teto e cruzadas de maneira que, em qualquer lugar ou posição que o cliente esteja sentado, a percepção em estéreo seja a mesma.

Como nos estúdios, algumas paredes têm forro de lã de rocha, com placas de madeira e furos redondos sobre tatame de palha. Esse conjunto funciona ao mesmo tempo como absorvedor e difusor das ondas sonoras. A cada faixa executada, o vinil em questão é colocado num pedestal à frente do DJ, para quem quiser conhecer a obra.

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Para comer: o sanduíche de peixe estilo ‘mc fish’ é pedida concorrida ()

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