Vendedor de sinal: transformando confiança em modelo de negócio
O vendedor de bala da esquina pode estar dando aula de marketing comportamental e sem cobrar consultoria
O modelo “vendedor de bala no sinal via Pix” vem revolucionando o comércio de rua, tem uns que colam QR Code nos pacotes, outros entregam a chave Pix e há quem aposte no “Pix da confiança”: você leva o produto e faz a transferência quando puder.
Foi isso que aconteceu com amiga da coluna, afinal, andar com dinheiro vivo na carteira virou peça de museu. No primeiro retorno depois da Cidade das Artes, sentido Recreio, na altura do condomínio Mandala, na Barra, um vendedor tem um plano B e quando alguém diz que está sem trocado, ele entrega um papelzinho com o nome da mulher (segundo diz), agradece e pede, com toda a educação, um Pix para ajudar a família.
O carioca Renan Lima, fundador da empresa de tecnologia Ultraqualify.tech, também tem um caso parecido. “O vendedor de balas me ofereceu uma, mas o sinal abriu e não tive tempo. Ele respondeu: ‘Leva. Depois você paga’. E me entregou um papel com o Pix. Guardei no carro e, três dias depois, me lembrei. Mandei R$ 10 e escrevi: ‘Desculpa a demora’. Mas qual risco esse vendedor corre? De alguém pegar e não pagar ou de alguém pagar muito mais do que ela vale, só pela confiança? Porque, no fundo, foi isso que aconteceu.”
Teve gente que foi longe comparando a ideia a um pensamento de Nietzsche, principalmente no livro “A Genealogia da Moral”, em que o filósofo defendia que a civilização também se constrói quando aprendemos a sentir uma dívida moral, e não apenas financeira. Quando alguém confia primeiro, cria uma espécie de dívida invisível. Alguns ignoram. Outros retribuem.
“O vendedor entende uma coisa que muita empresa ainda não entendeu: confiança antecipada é uma das formas mais poderosas de gerar valor. Ele estava apostando na consciência das pessoas e, às vezes, ganhando mais do que imaginava”, concluiu Renan.
Fato é que o vendedor de bala da esquina pode estar dando aula de marketing comportamental e sem cobrar consultoria.





