Chegada da Keeta, gigante chinesa, acirra a guerra do delivery no Rio

Com bilhões em jogo, mercado de entregas transformam a cidade em laboratório de uma disputa por restaurantes, entregadores e consumidores

Por Pedro Landim 20 fev 2026, 06h08 | Atualizado em 5 mar 2026, 18h50
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Múltiplas possibilidades: Thaissa Szapiro, da Puli Trattoria, cadastrou o restaurante em três plataformas (Ana Paula Amorim/Divulgação)
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Nota de atualização: 15 dias após a publicação desta matéria, a Keeta emitiu nota afirmando que cancelou sua entrada no Rio de Janeiro, sem data para retomar os investimentos na cidade. O anúncio foi feito no dia 4 de março, após a demissão de cerca de 200 colaboradores contratados para trabalhar na operação carioca. A empresa afirmou que segue em atividade na cidade de São Paulo e na Baixada Santista.

As motos se alinham, o sinal verde está aceso e o delivery carioca vive sua largada mais competitiva. O Rio tornou-se vitrine de uma disputa que movimenta 21 bilhões de dólares por ano no mundo. A chinesa Keeta começará a operar na cidade em março, com investimento previsto de 5,6 bilhões de reais no Brasil em cinco anos, entrando na pista dominada pelo iFood (80% do mercado) e já tensionada pela 99 Food. Braço da Meituan, gigante que realiza cerca de 80 milhões de entregas diárias na China – inclusive com o uso de drones -, a empresa chega prometendo rede própria de entregadores e capacetes “inteligentes”, com conexão bluetooth e navegação por áudio.

Nos bastidores, restaurantes observam a movimentação com expectativa: mais concorrência pode significar taxas mais equilibradas, melhores condições logísticas e, quem sabe, preços mais competitivos para o consumidor final. “A concorrência vai gerar um equilíbrio maior neste mercado”, acredita Thaíssa Szapiro, dona da Puli Trattoria, na Gávea, que está cadastrada nas três plataformas. O Rappi, o quarto concorrente, é mais voltado a conveniência.

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A importância do delivery cresce de forma clara, e nomes de peso entram no jogo com olhar atento. O chef Thomas Troisgros conta que 30% da receita do francês Le Blond vem das entregas, e acaba de incluir, a pedido da clientela, o Toto e o bar Tijolada no sistema. Se o T.T. Burger, sua marca de sanduíches, tem contrato de exclusividade com o iFood – ponto nevrálgico do negócio, que inclui táticas de vendas, promoções e visibilidade -, nas outras casas outros caminhos são possíveis.

“Empresas novatas precisam entender o consumidor, porque não é fácil fazê-lo migrar de plataforma”, opina o chef e empresário. “Todo mundo quer desconto, e as recém-chegadas estão queimando caixa nisso. É claro que vejo vantagem, mas nada salva uma logística fraca, pedidos atrasados e entregues com erro”, acrescenta o analista financeiro José Ricardo Dias, heavy user desses apps.

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A lentidão das plataformas para a resolução de problemas é uma queixa comum aos empresários e consumidores ouvidos pela reportagem, e a necessária festa dos cupons, como admite um executivo de uma das grandes companhias, gera crescimento artificial de vendas e não se sustenta a longo prazo. O cenário faz sorrir a clientela dos apps e envolve cifras de respeito. A 99 Food colocou 350 milhões de investimentos só no Rio, fez um show surpresa de João Gomes em Copacabana, em dezembro, pegou o título de “delivery oficial” do Carnaval, além de oferecer descontos robustos e taxa zero para restaurantes no primeiro momento.

A Keeta acena com cupons de até 200 reais, frete grátis e compensação imediata ao consumidor em caso de atraso. “Comida expressa cultura, e o delivery está muito ligado ao prazer. O Rio de Janeiro é único nesses quesitos”, atesta Danilo Mansano, VP de parcerias estratégicas da Keeta Brasil.

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Potencial carioca: “Comida expressa cultura, tudo a ver com a cidade”, diz Danilo Mansano, VP de parcerias estratégicas da Keeta Brasil, que fornecerá capacetes com bluetooth para os entregadores ()

Head de comunicação institucional do iFood, que em um ano injetou 1,1 bilhão de reais nestas praias, Rafael Corrêa afirma: “Nossa estratégia não é só competição por preço, mas compromisso com inteligência de mercado e geração de valores sustentáveis”.

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Longe do discurso oficial, no entanto, pipocam disputas judiciais, com ações em diferentes esferas, a começar pelos contratos de exclusividade, que chegaram ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Acionado na Justiça, o iFood também abriu processo por concorrência desleal contra a 99 Food que, por sua vez, foi alvo da Keeta por supostas tentativas ilegais de contratações e compra de exclusividade. Em novembro, na Baixada Santista, a estreante chinesa registrou boletim de ocorrência depois que desconhecidos teriam se passado por funcionários, com crachás falsos, para espionar o novo sistema implementado em restaurantes. Isso tudo reforça o potencial do país.

“Somos o maior mercado de delivery da América Latina, crescendo cerca de 9% ao ano. Com mais plataformas, mais gente vai pedir comida. Quem está na zona de conforto tem de se mexer”, analisa a consultora Bianca Fraga, do grupo Mindhub.

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Entre cupons generosos, batalhas judiciais e promessas de tecnologia de ponta, o Rio virou laboratório de um setor que acelera sem olhar para trás. Resta saber quem vai cruzar a linha de chegada com fôlego – e quem ficará pelo caminho quando os descontos cessarem e a fidelidade do consumidor entrar em jogo. 

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Estratégia pesada: para desbancar o iFood, responsável por 80% do setor, o 99 Food promoveu show gratuito de João Gomes em quiosque na Praia de Copacabana ()

Ai, que fome

Os mais pedidos pelos fluminenses 

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T.T. Burger: Thomas Troisgros fez acordo com o iFood ()

Hambúrguer
Sanduíche natural
Café da manhã
Comida árabe
Marmitas
Poke
Batata frita
Sorvete
Açaí 

Fonte: iFood

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