Dupla de artistas transforma resíduos em instalações e esculturas de luz
Lula Duffrayer e Flávio Carvalho, da Pirilampos do Planeta, estreiam no Rio com exposição que propõe novos olhares sobre o descarte do lixo
A lei da conservação da massa, formulada pelo químico francês Antoine Lavoisier no século XVIII, parte de uma ideia simples: a matéria não desaparece, apenas muda de forma. Séculos depois, o princípio ganha uma leitura contemporânea nas mãos de Lula Duffrayer e Flávio Carvalho, artistas cariocas que ressignificam aquilo que perdeu a função em matéria-prima para a criação.
À frente dos Pirilampos do Planeta, a dupla usa tampinhas, embalagens, brinquedos e outros resíduos para criar objetos e instalações luminosas que também lançam luz sobre o consumo e seu impacto ambiental. “Todas essas embalagens são pensadas exatamente para seduzir o nosso olhar. A função delas é encantar para que a gente consuma cada vez mais”, explica Lula.
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Os Pirilampos fazem o caminho inverso: aproveitam esse mesmo poder de sedução para abrir espaço a uma conversa sobre o que fazemos com aquilo depois que deixa de nos interessar. “A gente enxerga energia e beleza. Aquilo que as pessoas descartaram, a gente transforma”, resume.
A partir de quinta (22), esse trabalho pode ser visto em Reflexos, exposição gratuita no Centro Cultural Light, que irá abrigar sete instalações interativas. Centopeia, um penetrável onde as pessoas vão entrar numa caixa de espelhos e ouvir conselhos da própria Terra, é uma delas.
Só em 2026, cerca de cinco toneladas de resíduos já entraram na produção dos artistas, que mantêm parceria com três cooperativas de catadores de lixo do estado. Lula e Flávio mudaram de vida durante a pandemia, quando fecharam a sua produtora de eventos e foram morar em Teresópolis, na Região Serrana.
De início, o Pirilampos nasceu como um projeto de educação ambiental em escolas rurais da região, onde os dois usavam materiais descartados para falar sobre sustentabilidade e produzir objetos.
Hoje, além das cooperativas, a dupla garimpa matéria-prima no chamado “shopping chão” — o comércio informal de objetos dispostos no chão das ruas — e também em brechós e lojas de antiguidades. “Muitas vezes recebemos peças com nomes escritos de pessoas. A gente vê a humanização naquele material”, conta Flavio.
Para ele, o descarte também é uma espécie de arquivo do consumo. “Porque a gente descobriu que não existe jogar fora, ainda está tudo aqui.”A receptividade às obras fez a dupla ser convidada pelo cenógrafo Gringo Cardia para ajudar na concepção de um camarote na Marquês de Sapucaí, em 2024, e desde então o trabalho ganhou outra dimensão.
Eles já passaram por espaços como a SP-Arte, o CCBB de Belo Horizonte e a COP30, em Belém, e atualmente têm mostras em cartaz no Centro Sebrae de Sustentabilidade Cuiabá e no Farol Santander, em São Paulo.
A ideia do reaproveitamento também aparece em trabalhos de artistas como Vik Muniz, que criou obras a partir de materiais recolhidos no antigo aterro de Jardim Gramacho. A portuguesa Joana Vasconcelos é outra referência assumida pela dupla. “O objeto artístico é sempre um agente de diálogo.
E, quando a gente trata de um objeto que foi pensado pelo artista a partir de um descarte, ele cria uma conexão diferente, obviamente, com o espectador”, diz Adriana Nakamuta, professora e doutora em História da Arte e ex-curadora da EAV do Parque Lage.
Lula ainda acrescenta outras camadas: “A gente quer colocar poesia e encantamento em questões que são muito sérias.” É também por isso que Reflexos nasce como uma experiência imersiva, frisa a curadora Isabel Sanson Portella: “É uma obra que está ali, mas é com a presença do visitante que ela se concretiza.” A intenção não é oferecer uma cartilha sobre sustentabilidade, mas deixar uma inquietação. “Quero que, ao sair desse espaço, as pessoas estejam com uma interrogação na cabeça, tipo: ‘O que eu posso fazer?”, diz Lula.






