‘Saí de casa rapidinho’: as desculpas de quem vai às ruas sem proteção
A cidade está cheia de gente sem a máscara, de uso obrigatório, em lugares públicos; quase todos argumentam que ela está no bolso — o que não adianta nada

Ao anunciar, no último dia de agosto, a sexta fase de flexibilização das medidas de isolamento e decidir manter a proibição do banho de sol e do bate-papo sob barracas à beira-mar (vastamente ignorada, aliás), o prefeito Marcelo Crivella observou, a título de justificativa: “As pessoas não vão usar máscara para se bronzear, isso é impossível”.
O pior é que a aversão do carioca a cobrir nariz e boca, uma medida comprovadamente eficaz no controle do novo coronavírus e obrigatória por lei, não se restringe à areia. Segundo a Guarda Municipal, desde junho mais de 5 200 pessoas foram multadas em 107 reais por se recusar a usar máscara em locais públicos.
Isso lembrando que a fiscalização é precária e que nem todas as pessoas abordadas são autuadas – os guardas e fiscais têm autonomia total para decidir se a infração tem ou não razão de ser. “As desculpas que as pessoas dão variam muito. Mas ser educado na ponderação facilita a liberação”, admite Roberto Paixão, servidor público que há 28 anos dá expediente na Guarda.
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A abordagem dos guardas que circulam diariamente pela cidade com o propósito de conscientizar a população costuma seguir um padrão. Depois de rápido discurso sobre a necessidade do uso de proteção facial, vem a pergunta: “Onde está a sua máscara?”. Oito em cada dez pessoas flagradas sem o acessório obrigatório em lugares públicos estão com ela no bolso. “Caiu no chão, vou levar para lavar”, tentou explicar um rapaz abordado em Copacabana. Foi liberado.

“a saidinha rápida” acabou em multa (Leo Lemos/Veja Rio)
No calçadão do Arpoador, o turista Thiago Assis, de 27 anos, viu os guardas a postos, não se mexeu para cobrir o rosto e levou multa. “Aí não dá. É um desrespeito com o nosso trabalho e com o restante da população que segue as regras”, indignou-se o guarda Vilson Nunes.
Carteiradas e apelo para o famoso “Sabe com quem está falando” acontecem, como já se viu no Rio e em São Paulo, mas não são frequentes no dia a dia. Mesmo assim, o cotidiano da fiscalização está longe de ser tranquilo. “Tivemos alguns colegas xingados pesadamente”, lembra o guarda José Marcelo, líder do Grupamento Especial de Praia. Até o fim de agosto, 22 pessoas foram levadas à delegacia por desacato, resistência ou desobediência.
Estar sem documento na hora da abordagem também pode resultar numa visita à DP, onde os dados do titular são checados e a multa de 107 reais é aplicada via CPF — em algumas cidades da Itália, primeiro país da Europa atingido pela pandemia, o valor da punição chega a 1 000 euros, mais de 6 000 reais.

Em operação feita no fim de agosto pela Zona Sul, o estudante Felipe Sobral, aparentemente na casa dos 20 anos, foi flagrado em duas irregularidades: estava sem máscara e sem documento. Para completar, reagiu à abordagem de forma considerada “pouco cordial”: “Não uso porque o presidente Bolsonaro também não usa”, proclamou. Líder operacional da Unidade de Ordem Pública de Copacabana, o guarda Marcos Costa o conduziu à 12ª DP, na Rua Hilário de Gouveia, onde foi autuado. Homens jovens, de até 40 anos, respondem por cerca de 70% das multas aplicadas desde maio, quando o decreto publicado pelo prefeito Marcelo Crivella foi posto em prática e as multas passaram a valer.

Durante as fiscalizações da guarda o mais comum, no entanto, é a pessoa ficar constrangida e admitir o erro. “Dei mole mesmo, esqueci de botar”, disse o músico Jefferson Cardim, 40 anos, multado no calçadão de Ipanema durante uma saidinha de bicicleta.
A justificativa dada por ele também foi a mais frequente: estava perto de casa, saiu rapidinho, já ia voltar. Flagrada sem proteção facial na Avenida Atlântica, em Copacabana, uma moça apontou o prédio onde morava, argumentou que havia saído distraída (“Foi muito sem querer que vim sem máscara”) e caiu no choro. Não adiantou – foi autuada.

Segundo especialistas, o que falta não é informação, é hábito mesmo. “Todo mundo sabe que as máscaras reduzem a probabilidade de contaminação, mas as pessoas estão demorando a se acostumar com o uso, o que é preocupante”, diz José Temporão, médico sanitarista e ex-ministro da Saúde.

Uma pesquisa do Instituto Datafolha divulgada em agosto de certa forma confirma o problema: nove entre dez entrevistados afirmaram usar a máscara sempre que estão na rua, mas só metade disse ver as pessoas ao seu redor fazendo o mesmo. Nesse jogo de empurra-empurra, todo mundo sai perdendo.