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Vinoteca

Por Marcelo Copello, jornalista e especialista em vinhos Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Marcelo Copello dá dicas sobre vinhos

Um retorno à mãe natureza através de uma taça de vinho

O vinho é mais do que uma bebida, expressa um novo pacto entre homem e natureza.

Por Marcelo Copello Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 abr 2026, 05h00
Toscana no outono
 (shutterstock/Divulgação)
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Por séculos, o ser humano acreditou que a natureza existia apenas para servi-lo. “Dominai a Terra”, dizia a Bíblia — e obedecemos. Desmatamos, poluímos rios e mares, extinguiram-se espécies. Em nome do progresso, esquecemos que também fazemos parte da natureza.

Nas últimas décadas, esse pensamento vem mudando. A ecologia ganhou força como valor essencial, e começamos a buscar uma reconciliação com o planeta. Nesse novo caminho, o vinho surge como um símbolo poderoso.

Desde a Antiguidade, o vinho foi visto como um presente dos deuses, um elo entre o homem e a natureza. Era celebração da colheita, da terra, do clima. Na Idade Média, era sagrado: representava o sangue de Cristo e expressava a bênção divina em cada safra. Já na era moderna, com o avanço da ciência e da indústria, o vinho se transformou em produto — muitas vezes em larga escala, perdendo a conexão com suas raízes.

A partir do século XX, com os excessos da agricultura industrial, vieram os alertas: escândalos com vinhos adulterados, o uso desenfreado de aditivos e pesticidas, e uma preocupação crescente com o que levamos à boca. Foi então que o vinho começou a retomar seu vínculo com a terra.

Hoje, cresce o interesse por vinhos orgânicos e biodinâmicos — feitos com uvas cultivadas sem agrotóxicos e com profundo respeito à natureza. Os vinhos orgânicos utilizam apenas adubos naturais, evitam produtos químicos e combatem pragas com soluções vegetais ou minerais. Os biodinâmicos, por sua vez, seguem uma filosofia mais ampla, inspirada pelo pensador Rudolf Steiner. Tratam o vinhedo como um organismo vivo, sincronizado com os ciclos da lua, dos planetas e da terra. Pode parecer místico, mas é levado a sério por produtores renomados, como o Domaine de la Romanée-Conti.

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Esses métodos não são uma volta ao passado, mas uma evolução — com alta tecnologia e certificações rigorosas. E embora não garantam, por si só, vinhos melhores em sabor, sinalizam um desejo por mais autenticidade, equilíbrio e responsabilidade.

O vinho, assim, torna-se mais do que uma bebida. Ele expressa um novo pacto entre homem e natureza. Uma forma de brindar não só o prazer, mas também um futuro mais consciente.

Talvez, no fundo da taça, reencontremos aquilo que perdemos: o gosto da terra, do tempo — e da harmonia com o mundo ao nosso redor.

 

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